Philia tes Sophias – Amor da sabedoria

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A maneira correta de iniciar um texto filosófico é, sem dúvidas, definindo os conceitos. Sem esse clareamento prévio do que o escritor quer dizer com os termos empregados, corre-se o risco de levar o leitor a compreender de maneira diferente o sentido final do que foi escrito.

Conceito é todo processo que torna possível a descrição, a classificação e a previsão dos objetos cognoscíveis, isto é, que podem ser conhecidos. Embora o conceito seja normalmente indicado por um nome, não é o nome, já que diferentes nomes podem exprimir o mesmo conceito.

O termo “Filosofia” (φιλία της σοφίας [Transliterado: philia tes sophias] — amizade/amor da sabedoria) é tradicionalmente atribuído a Pitágoras de Samos (séc. V a. C.), que contrariando o costume de sua época de chamar de “sábios” os filósofos, desejou que o chamassem apenas amigo da sabedoria. Diógenes Laércio (séc. I d. C), historiador romano, afirma que “segundo Pitágoras, a qualidade de ‘sábio’ não convém a nenhum homem, mas só a Deus; o homem deve se contentar com amar e buscar a sabedoria”[1]RAEYMAEKER, L. D. Introdução à Filosofia. 2ª. ed. São Paulo: Herder, 1969.. Embora não seja historicamente seguro de que o termo tenha sido cunhado por Pitágoras, certamente o foi por um homem religioso, que acreditava ser a sabedoria possível apenas aos deuses.

A sabedoria buscada pela filosofia, assim como explica Hugo de São Vitor (séc. XII d. C.), não se trata de “ferramentas, ou de alguma ciência ou notícia sobre algum método fabril, mas daquela sabedoria que, não necessitando de nada, é uma mente viva e a única e primeira razão de todas as coisas”[2]HUGO DE SÃO VITOR. Tratado dos três dias. In: VITOR, H. D. S. Princípios Fundamentais de Pedagogia. Foz do Iguaçu: Centro Hugo de São Vitor, 2019..

Oráculo do templo de Apolo, em Delfos
Oráculo do templo de Apolo, em Delfos

Nesse trecho, o autor se refere à sabedoria divina, que não necessita de nada, porque nada contém a menos, mas, simultaneamente, contempla o passado, o presente e o futuro. Essa contemplação é “mente viva” porque aquilo que já esteve na razão divina nunca é esquecido. E é, sobretudo, “primeira razão de todas as coisas” porque, assim como vemos no prólogo do Evangelho de São João, “No princípio era o Verbo (…). Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito”. (Jo I, 1.3).

O Verbo (Λόγος [Transliterado: Lógos] — A razão enquanto substância ou causa do mundo) é o modelo arquetípico de todas as coisas. São Boaventura (séc. XII d. C.), importante filósofo medieval, explica que, sendo criado por Deus, o mundo possui marcas próprias do criador. Por essas marcas, esses rastros que Ele deixou na criação, é possível retornar ao Criador. Desse modo, para chegar ao conhecimento de Deus, bastaria contemplar os traços, os vestígios que Ele deixou na criação, assim como um artista que, ao modelar o barro ou pintar uma tela, deixa suas marcas próprias, marcas que possibilitam chegar ao conhecimento do autor pela obra.

Os gregos entendiam a sabedoria como o estudo de cada uma das realidades e da ordenação de todas estas realidades entre si, de maneira que, através de uma rede de causalidades, fosse possível chegar a uma primeira causa, à qual se subordinam todas as demais causas. À luz da interpretação de São Boaventura, agora é possível compreender a inscrição “conhece-te a ti mesmo”, que se encontrava no pórtico do templo de Apolo, em Delfos. Sendo o homem a obra perfeitíssima do Criador, meditar sobre si mesmo é nunca se esquecer de sua origem divina.

Notas

Notas
1RAEYMAEKER, L. D. Introdução à Filosofia. 2ª. ed. São Paulo: Herder, 1969.
2HUGO DE SÃO VITOR. Tratado dos três dias. In: VITOR, H. D. S. Princípios Fundamentais de Pedagogia. Foz do Iguaçu: Centro Hugo de São Vitor, 2019.

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