O estrondoso silêncio

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No dia 27 de março do ano passado, por ocasião da celebração extraordinária de oração pela pandemia do COVID-19, o Papa Francisco concedeu a bênção Urbi et Orbi, à qual esteve ligada a possibilidade de receber a indulgência plenária.

Durante a leitura do Evangelho de São Marcos (Mc 4, 35 – 41), com a praça de São Pedro vazia, silenciosa, aquelas palavras faziam eco em um lugar bem distinto: o coração dos que a escutavam. Elas atingiam profundamente a todos que, como os discípulos, clamavam por Jesus em busca de calmaria durante a inesperada tempestade: “Mestre, não te importas que pereçamos?” (Mc 4, 38).

Em nossos dias, também enfrentamos a “inesperada tempestade”, que “desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades”. A tempestade nos assusta porque pensamos que “continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.

O Senhor nos chama “a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. (…) Tempo de separar o que é necessário daquilo que não o é”. É neste tempo que enxergamos — porque caem as “maquiagens dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’ sempre preocupado com a própria imagem” — aquelas figuras que infundem a esperança com paciência e responsabilidade. “Quantos pais, mães, avôs e avós, professores, mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração!”

Do coração da Igreja, a “barca de Pedro”, o Santo Padre nos convida a aproveitar esses tempos de crise, essas horas em que tudo parece naufragar, para convidar o Senhor a subir no barco da nossa vida. A pedir que Jesus “olhe para nossa dolorosa condição, conforte [nós] os seus filhos” e serene as nossas tempestades.

Naquela praça, sob a chuva, o Santo Padre tinha diante dos olhos o crucifixo milagroso da basílica de São Marcelo, aos pés do qual trazia o sofrimento de tantos filhos seus que sofrem com a pandemia. E, a fim de romper o silêncio ensurdecedor da apatia moderna, bradou a contradição da Cruz ao mundo dessacralizado: “Com Deus, a vida nunca morre!”.


* Os trechos entre aspas correspondem ao texto da Homilia do Papa Francisco na celebração extraordinária de oração pela pandemia da COVID-19.

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