Filosofia: ciência e modo de vida

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A filosofia não se trata de uma simples busca curiosa e nem se restringe a descobrir as causas mais imediatas, como as demais ciências. A busca filosófica visa descobrir as causas mais universais, as causas primeiras de todas as coisas. Sendo ela a expressão mais alta da amizade pela sabedoria, não se contenta com outra coisa a não ser a própria verdade. Em síntese, é possível dizer que a filosofia é a ciência das causas primeiras.

Julian Marías (1914-2005) explica que “por filosofia entenderam-se principalmente duas coisas: uma ciência e um modo de vida[1]. Ela é ciência porque possui uma metodologia investigativa própria; “os filósofos têm a consciência de continuarem uma obra empreendida muito tempo antes deles”[2]. Essa ciência filosófica não se confunde com as demais formas de conhecimento, porque “as ciências buscam aquartelar-se na determinação das leis dos fenômenos, enquanto a filosofia deseja conhecer a natureza profunda das coisas, suas causas supremas e seus fins derradeiro”[3].

Ela não permanece na simples observação do fenômeno (a experiência sensível), mas parte para a profundidade que só a razão é capaz de abarcar.

Além de ser uma ciência, a filosofia é um modo de vida. Aqui é preciso explicar bem alguns equívocos que se comete em relação a ela. É comum ouvirmos falar de “filosofia de vida”, “filosofia da empresa” etc., mas o que realmente querem falar é de uma prática de vida, de uma política empresarial. Isso não é filosofia! Quando falamos em filosofia como modo de vida, o que queremos dizer é que a filosofia é um movimento constante de transformação da própria vida por meio da verdade que se busca.

Nota-se que a filosofia, bem mais que uma ciência comum, é uma disposição da alma. Uma potência que move o homem em direção à sabedoria. É uma atividade perene, um constante renovar-se. Karl Jaspers (1883 – 1969), filósofo alemão, entende essa atividade perene como um “estar em marcha”.

E quando o homem se desperta para a filosofia, quando ele se maravilha com a verdade, deseja também despertar os demais. Uma criança, por exemplo, quando questiona, já tem a disposição, mas é preciso trazer à luz. É nesse sentido que Sócrates (Séc. IV a.C.) define o trabalho do filósofo como sendo “maiêutica” (a arte da parteira). Para o filósofo, a alma pode alcançar a verdade apenas “se dela estiver grávida”. Desse modo, sua função era auxiliar o nascimento do conhecimento, assim como uma parteira auxilia a mulher grávida a dar à luz.

A força motriz dessa marcha é o próprio amor pela verdade, que desperta o homem a buscar enquanto também o atrai constantemente. Assim como o amante é atraído pela amada, o filósofo, amante, é atraído pela sabedoria, pela verdade. O filósofo é aquele que foi despertado pela verdade e para a verdade.


[1] MARÍAS, J. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

[2] RAEYMAEKER, L. D. Introdução à Filosofia. 2ª. ed. São Paulo: Herder, 1969.

[3] MARÍAS, J. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

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