Em resposta ao infeliz artigo da Arquidiocese de Mariana sobre a Santíssima Eucaristia

postado em: Catolicismo | 0
Padre Anderson Marçal com o Santíssimo Sacramento pelas ruas de São Paulo. Fonte: Blog Canção Nova

Recentemente, li um infeliz artigo (anexado abaixo) que, visando elevar a chamada “presença na assembleia reunida”, menospreza categoricamente a presença real e sacramental de Nosso Senhor Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. Como se não bastasse as primeiras tontices, encerra afirmando que: “Jesus instituiu a Eucaristia não como objeto de adoração, mas como alimento e força para quem precisa: ‘Tomai e comei!’. Não para quem merece”. É lamentável que exista quem pense assim, porque, como afirma São João Paulo II, “a Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções”[1].

Desconhecendo (ou ignorando) o ensinamento da Santa Igreja, preferiu fiar-se à sua interpretação maluca dos textos sagrados para redigir o artigo. Portanto, tecerei meu comentário me bastando em citar os textos da Igreja que, sem pestanejar, colocam em xeque os argumentos do referido texto.

Buscando em documentos mais recentes, encontramos na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, de São João Paulo II, a seguinte afirmação: “A Igreja vive da Eucaristia. (…) É com alegria que ela experimenta, de diversas maneiras, a realização incessante desta promessa: ‘Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo’ (Mt 28, 20); mas, na sagrada Eucaristia, pela conversão do pão e do vinho no corpo e no sangue do Senhor, goza desta presença com uma intensidade sem par.”[2]

Aqui já se nota que a Igreja não confunde, em nenhum momento, a presença de Nosso Senhor na Eucaristia com as outras presenças, também reais, mas nunca comparadas com a “intensidade sem par” da presença Eucarística, onde “está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo”[3]. Papa Pio XII, explicando a presença de Cristo na Igreja, afirma que a presença de Cristo está “por excelência, sob as espécies eucarísticas”[4] e Papa Paulo VI, em sua Mysterium Fidei, reafirmando a fé da Igreja, lembra que “Sempre a Igreja Católica conservou religiosamente, como tesouro preciosíssimo, o mistério inefável da fé que é o dom da Eucaristia, recebido do seu Esposo, Cristo, como penhor de amor imenso”[5].

Papa Paulo VI, ao tratar da presença real, afirma: “Esta presença chama-se ‘real’, não por exclusão como se as outras não fossem ‘reais’, mas por antonomásia porque é substancial, quer dizer, por ela está presente, de fato, Cristo completo, Deus e homem. Erro seria, portanto, explicar esta maneira de presença imaginando uma natureza ‘pneumática’, como lhe chamam, do corpo de Cristo, natureza esta que estaria presente em toda a parte; ou reduzindo a presença a puro simbolismo, como se tão augusto Sacramento consistisse apenas num sinal eficaz ‘da presença espiritual de Cristo e da sua íntima união com os féis, membros do Corpo Místico”[6].

Cristo está presente na reunião dos fieis em nome d’Ele, entretanto, “de modo ainda mais sublime, está Cristo presente à sua Igreja enquanto esta, em seu nome, celebra o Sacrifício da Missa e administra os Sacramentos”[7].

A Presença Real de Cristo na Sagrada Eucaristia é, de tal maneira real, substancial e verdadeira que a Igreja, desde o seu início, honra “com uma única adoração o Verbo Deus encarnado e a sua própria carne”[8], de modo que Santo Agostinho afirma: “Ninguém come esta carne sem tê-la primeiro adorado’, acrescentando que não só não pecamos adorando, antes pecamos não adorando”[9]. Negar, portanto, que em tempos de crise, de guerra ou de pandemias, adorar a Santíssima Eucaristia seja desnecessário, é, no mínimo, duvidoso.

Papa Pio XII, ao tratar da adoração eucarística, pede aos sacerdotes que “sejam o mais possível abertos aos sempre mais numerosos fiéis, para que eles, recolhidos aos pés de nosso Salvador, ouçam o seu dulcíssimo convite: ‘Vinde a mim, vós todos que estais atribulados e oprimidos, e eu vos aliviarei (Mt 11, 28)’.”[10] Ora, não estamos nós atribulados? Certamente! E ainda mais por não podermos ir ao templo adorar a Jesus Eucarístico. Por que, portanto, não deveria o sacerdote ir com a Divina Eucaristia ao encontro do povo a fim de que, aos pés do Mestre, clamem pelo “alívio”?

Por mais que, em muitos lugares ainda se conserve a piedade eucarística, “não faltam sombras, infelizmente. De fato, há lugares onde se verifica um abandono quase completo do culto de adoração eucarística. (…) Às vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa.”[11]

Em tempos de pandemia, quase não conseguimos cumprir aquilo que pediu São Paulo VI: “durante o dia, não deixem de visitar o Santíssimo Sacramento”[12]. Entretanto, felizes são os fieis das paróquias nas quais o sacerdote, movido pelo amor eucarístico, leva Jesus às ruas para que seus filhos possam pedir pelo fim da peste mantendo o olhar fixo no Filho do Homem elevado sobre a terra. (cf. Jo 3, 14).

APÊNDICE:

CONCÍLIO ECUMÊNICO DE TRENTO – Sessão XIII

Cap. V – Do culto e veneração que se deve dar a este santíssimo Sacramento

Não resta, pois, motivo algum de dúvida de que todos os fiéis Cristãos tenham que venerar este Santíssimo Sacramento e prestar-lhe, segundo o costume sempre seguido pela Igreja católica, o culto de adoração que se deve a Deus. Também não se deve tributar menos adoração com o pretexto de que foi instituído por Cristo nosso Senhor para recebe-Lo, pois cremos que está presente nesse Sacramento, aquele mesmo Deus de quem o Pai Eterno quando O introduziu no mundo disse: Adorem a Ele todos os Anjos de Deus, o mesmo a Quem os magos prostrados adoraram, e Quem finalmente, segundo o testemunho da escritura, foi adorado pelos Apóstolos na Galiléia.

Declara também o Santo Concílio que o costume de celebrar com singular veneração e solenidade todos os anos em dia certo, demarcado e festivo, este sublime e venerável Sacramento e o costume de conduzi-lo em procissões, honorífica e reverentemente pelas ruas e lugares públicos, foram introduzidos na Igreja de Deus com muita piedade e religião. É sem dúvida muito justo que sejam designados alguns dias de festa em que todos os Cristãos testemunhem com singulares e agradáveis demonstrações a gratidão e lembranças de seu encorajamento e respeito pelo Dono e Redentor de todos, por tão inefável e claramente Divino benefício, em que se representam seus triunfos e a vitória que Ele alcançou sobre a morte. É necessário por certo que a verdade vitoriosa triunfe de tal modo sobre a mentira e as heresias que Seus inimigos, assistindo tanto esplendor e testemunhos do grande regozijo da Igreja Universal, ou debilitados e alquebrados sejam consumidos pela inveja ou então envergonhados e confundidos tomem novo sentido.

 

ANEXO:

Como já não mais se encontra no site da Arquidiocese, trazemos abaixo o referido texto.

É preciso sair com o Santíssimo nas ruas?

Padre José Antônio de Oliveira – Arquidiocese de Mariana

Ante o surto do COVID-19, de todos os lados nos chegam pedidos no sentido de que os padres andem ou façam carreatas com o Santíssimo pelas ruas. Já houve quem fez isso. Outros não concordam. O que dizer?

Robson Hamuche fez uma reflexão interessante. Depois dessa pandemia, “não podemos voltar ao normal, porque o normal era exatamente o problema. Precisamos voltar melhores”. E aqui está a grande questão. Como aprender com tudo isso? O que mudar? Certamente as lições são incontáveis.

Fiquemos na questão do Santíssimo. Jesus pegou o pão e disse: “Isto é o meu corpo” (Lc 22,19). Graças a essa palavra, todos nós acreditamos que Jesus está realmente presente na Hóstia consagrada. Ali, nós o encontramos, o adoramos e dele nos alimentamos.

Percorrendo o Evangelho, iremos encontrar outras passagens muito semelhantes. Em uma das suas catequeses aos discípulos, Jesus afirma: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali ESTOU EU no meio deles” (Mt 18,20). Seria uma presença menos real? Menos importante? Menos eficaz? Na celebração eucarística, antes mesmo da consagração, o povo já afirma: “Ele está no meio de nós!”. E está. Uma presença real…

João Evangelista deixa claro que Jesus Cristo é a Palavra do Pai, o Verbo que se encarnou e fez morada no meio de nós (Jo1). Ele está na Palavra que é proclamada e ouvida. Ele é a Palavra.

Quando fala do julgamento final, sua palavra é também muito incisiva: EU tive fome, EU era estrangeiro, EU estava doente, EU estava preso… “Cada vez que fizestes isso a um dos meus irmãos mais pequeninos, a MIM o fizestes” (Mt 25,31-40).  Jesus não fez uma comparação: É como se fosse… Ele diz claramente ‘eu’, ‘a mim’. Ele está presente na(o) irmã(o) que encontramos.

Será que poderíamos dizer que essa presença dele não é real? Que argumento teológico ou bíblico poderíamos usar para dizer que a presença de Jesus Cristo, na Hóstia consagrada, é mais importante, mais real, mais poderosa do que sua presença na pessoa, na Palavra, num grupo que se reúne na fé em nome dele?

Como não acreditar que é possível estar em comunhão com Ele, mesmo quando não podemos receber a Hóstia? Como não entender que, se não podemos ir à igreja, o nosso lar é a Igreja? Ali, num clima de oração, de amor, Jesus está “realmente” presente. Há motivos para não aproveitar nossas “igrejas” fechadas e pensar um pouco mais no apelo insistente do papa Francisco para que sejamos uma “Igreja”aberta, em saída, para fora, além da sacristia, presente no mundo?

É o momento de abandonar o costume de identificar a Eucaristia com o objeto, a Hóstia. É o momento de pensar nela como ação salvadora de Jesus Cristo, em nossa vida e na vida dos nossos irmãos e de nossas irmãs. É o momento de deixar de olhar para a Hóstia como algo mágico, que cura tudo, e realizar o desejo de Jesus de fazer dele próprio – na Hóstia consagrada –o alimento que nos fortalece na caminhada da vida e na luta por um mundo justo e fraterno. Em vez de colocar a Hóstia num ostensório dourado, distante de todos, vamos recordar que Jesus escolheu os lugares mais pobres e simples, para nascer, viver e morrer. É hora de resgatar a simplicidade de Jesus e da Igreja primitiva.

E é o momento de recordar que Jesus instituiu a Eucaristia não como objeto de adoração, mas como alimento e força para quem precisa: “Tomai e comei!”. Não para quem merece.


NOTAS:

[1] Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 10.

[2] Ibid., nº1.

[3] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ministério e a vida dos sacerdotes Presbyterorum ordinis, 5.

[4] Carta Encíclica Mediator Dei, nº 17.

[5] Carta Encíclica Mysterium Fidei, nº 1.

[6] Ibid., nº 41.

[7] Ibid., nº 38.

[8] Conc. Constant. II, Anath. de trib. Capit., cân. 9 collat. Con. Efes. Anath. Cyrill, cân. 8. Cf. Conc. Trid. Sess. XIII, cân. 6; Pio VI, Const. Auctorem fidei n. LXI.

[9] Carta Encíclica Mediator Dei, nº 116.

[10] Ibid., nº 122.

[11] Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 10.

[12] Ibid., nº 68.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *